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Edifício-sede da Diretoria Geral de Saúde Pública à rua do Resende, 128 (atual Instituto Nacional do Câncer). Capa da publicação Archivos de Hygiene, ano I, n. 1, 1927, Fig. 11

Quando Oswaldo Cruz foi nomeado para a Diretoria Geral de Saúde Pública em 1903, a febre amarela era o principal problema sanitário da capital federal. Só em 1902, quase mil pessoas morreram na cidade vitimadas pela doença. Principalmente por causa dela, o Rio adquirira a incômoda fama de “túmulo dos estrangeiros”.

Até fins do século XIX, havia um relativo consenso sobre a origem da enfermidade. A tese mais aceita era a dos miasmas. Segundo ela, as doenças infecciosas eram causadas pelos ares poluídos que emanavam dos pântanos e de matérias orgânicas em processo de decomposição. Acreditava-se que o contágio se dava pelo contato com os doentes.

Essas explicações, no entanto, começariam a ser questionadas na virada para o século XX, quando a hipótese do médico cubano Juan Carlos Finlay sobre a transmissão da febre amarela pelo mosquito Stegomyia fasciata (hoje conhecido como Aedes aegypti, transmissor também da dengue) foi testada com êxito em Cuba por uma comissão de médicos militares norte-americanos.

Adepto da teoria de Finlay, Oswaldo Cruz baseou toda a sua campanha no combate ao mosquito. Iniciada em abril de 1903 com a criação do Serviço de Profilaxia Especifica da Febre Amarela, ela foi estruturada em moldes tipicamente militares. A cidade foi dividida em dez distritos sanitários, sob jurisdição das delegacias de Saúde, a quem competia receber a notificação dos enfermos, aplicar multas e intimar os donos de imóveis considerados insalubres a reformá-los ou demoli-los.

Para eliminar os focos onde os mosquitos se reproduziam, Oswaldo criou as brigadas sanitárias, ou equipes de “mata-mosquitos”, como o povo as chamava. Munidas de inseticidas e instrumentos apropriados, elas percorriam diariamente as ruas e casas da cidade realizando a desinfecção de todos os locais onde pudessem ser encontradas larvas do inseto. À seção de isolamento e expurgo cabia o saneamento das casas situadas nas regiões de foco e o isolamento domiciliar ou hospitalar dos doentes.

Para divulgar suas ações, Oswaldo fez circular na imprensa os Conselhos ao Povo, uma série de folhetos educativos com explicações sobre as medidas adotadas. Numa época em que a maioria da população era analfabeta e em que muitos médicos desacreditavam da teoria de Finlay e eram refratários à notificação obrigatória de seus pacientes à saúde pública, a iniciativa não seria suficiente para vencer as resistências à campanha.

Apesar das dificuldades, a epidemia foi aos poucos perdendo força. Era esse o principal argumento de que dispunha Oswaldo Cruz para calar seus adversários. Outro aliado importante ele teria com a vinda de uma missão do Instituto Pasteur de Paris ao Rio de Janeiro para estudar a validade da teoria havanesa – nome pelo qual ficaria conhecida no Brasil a hipótese de Finlay. Formada pelos médicos Pierre Paul Émile Roux, Paul Louis Simond e Alexandre Tourelli Salimbeni, a missão chegara à cidade em novembro de 1901 e aqui permaneceu por quatro anos, ao fim dos quais apresentou um relatório favorável à nova estratégia profilática.

No início de 1907, já não se falava mais de epidemia de febre amarela no Rio de Janeiro. Oswaldo Cruz cumprira a sua promessa. Em março daquele ano, ele pôde, enfim, escrever ao presidente Afonso Pena: “graças à firmeza e vontade do governo, a febre amarela já não mais devasta sob a forma epidêmica a capital da República”.